A falta de recursos para manutenção e investimento em infraestrutura vem se acumulando há anos nas universidades federais e já compromete as condições de pesquisa, segundo dirigentes e pesquisadores ouvidos pela Folha.
Mesmo quando conseguem verbas para comprar equipamentos, as instituições enfrentam dificuldades para custear reparos e conservar os prédios onde funcionam laboratórios e acervos científicos.
Na quarta-feira (7), a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), no Recife, registrou o terceiro incêndio em apenas uma semana. Sem deixar feridos, o fogo destruiu o andar superior de um edifício de laboratórios, com prejuízo estimado em R$ 100 milhões em pesquisas acumuladas ao longo de décadas.
Segundo o reitor, Alfredo Macedo Gomes, o episódio representou um golpe duro no patrimônio acadêmico, resultando na perda irreparável de anos de dedicação de estudantes e pesquisadores. A Polícia Federal também investiga boatos de possíveis ataques para determinar se o fogo foi acidental ou criminoso.
No RUF (Ranking Universitário da Folha), a UFPE figura como 1ª colocada entre as universidades do Nordeste em todas as 11 edições. No ano passado, ela ficou na 11ª posição no ranking nacional.
Para Estêvão Gamba, coordenador do RUF, as consequências do incêndio no campus da UFPE serão sentidas nos próximos anos, com uma provável queda na produção científica da universidade. “O Brasil produz muita ciência de impacto sem dinheiro e infraestrutura”, diz.
Essa degradação física acompanha a queda nos recursos do orçamento federal. Em 2025, a verba destinada a obras, reformas e compra de equipamentos permanentes nas federais atingiu R$ 600 milhões —o menor patamar em quase 20 anos, segundo o relatório “Panorama do Financiamento das Ifes no Brasil”, do Sindicato Nacional dos Docentes, elaborado com dados do Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento).
O montante representa uma fração do pico de R$ 5,32 bilhões registrado em 2011 e fica R$ 1 bilhão abaixo do valor de 2007 (R$ 1,6 bi), quando teve início o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais). Todos os valores foram corrigidos pela inflação.
Para a pesquisadora da Unifesp e integrante do Sou_Ciência, Maria Angélica Minhoto, a comparação com o pico precisa considerar que parte dos recursos daquele período foi usada para construir prédios e implantar estruturas que ainda não existiam. Isso não significa, porém, que os investimentos pudessem cair continuamente depois da expansão. O orçamento deveria ter se estabilizado em um patamar capaz de garantir a conservação do que foi construído.
Segundo a pesquisadora, a derrocada dos investimentos se aprofundou com o contingenciamento decorrente da crise fiscal no governo Dilma Rousseff, a promulgação do Teto de Gastos na gestão Michel Temer e a falta de priorização orçamentária durante o governo Jair Bolsonaro.
“Precisaríamos avançar numa política de financiamento das instituições federais de tal forma que elas não dependessem da boa vontade dos congressistas. A gente está submetido a um Congresso que muitas vezes é negacionista e avesso ao funcionamento das instituições científicas”, diz Minhoto.
Procurado pela Folha, o MEC (Ministério da Educação) afirmou que mantém diálogo constante com as reitorias e que vem fazendo um esforço consistente para recuperar o orçamento das federais desde 2023, após as perdas sofridas entre 2020 e 2022.
Segundo a pasta, a dotação autorizada de orçamento discricionário (custeio e investimento) passou de R$ 6,1 bilhões em 2020 para R$ 8,2 bilhões em 2026 —um valor 43,8% superior ao empenhado em 2022.
A professora Helena Nader, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciência), aponta que o problema de financiamento das universidades federais está atrelado às demandas do Congresso.
“A definição do orçamento da União está centralizada no Congresso, que costuma promover cortes nas propostas enviadas pelo Executivo. Esses recursos das universidades acabam redirecionados para emendas parlamentares”, diz.
Segundo ela, houve uma retomada dos investimentos no setor no governo Lula depois de anos de cortes na gestão Bolsonaro, embora as universidades federais ainda dependam de editais do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para projetos de infraestrutura.
Para o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, o sucesso na pesquisa acaba pesando no caixa da universidade. Pesquisadores conseguem verbas do CNPq e do exterior para comprar grandes equipamentos, como o tanque oceânico voltado ao pré-sal, mas a conta de luz, água e manutenção cai no orçamento discricionário, que não para de encolher.
“Quanto mais a gente cresce na pesquisa, mais orçamento para custeio precisamos, e esse orçamento não vem.”
Em 2023, um relatório da editora científica Elsevier e da Agência Bori mostrou que a publicação de artigos científicos no Brasil caiu pela primeira vez em 2022, último ano da gestão Bolsonaro. A produção voltou a subir em 2024, segundo o mais recente relatório.
De acordo com Sabine Righetti, pesquisadora da Unicamp na área de produção e circulação de conhecimento, o Brasil ainda se mantém entre os 15 países com maior número de artigos científicos publicados. “Você não consegue pagar a luz, você não consegue pagar o bolsista que é quem produz a ciência de fato no país, e o governo fica falando que você é ruim, que você não produz. Então o combo é muito difícil.”
Minhoto afirma que os desastres como o incêndio na UFPE são a manifestação tardia de um esvaziamento orçamentário que começou há uma década. “A gente vai sentir as consequências desta queda de 2014 para cá agora. É o Museu Nacional pegando fogo, é a UFPE pegando fogo por falta de recurso para manutenção.”
Em setembro de 2018, o Museu Nacional —vinculado à UFRJ e considerado a instituição científica mais antiga do país— foi atingido por um incêndio que destruiu 80% de seu acervo.
Pouco antes da tragédia, segundo a vice-diretora do Museu Nacional, Juliana Sayão, a instituição havia aprovado um projeto de R$ 21 milhões junto ao BNDES para adequações de prevenção a incêndio e pânico. Os recursos chegaram a ser liberados na véspera do sinistro, mas não houve tempo para execução.
Hoje, o projeto de reconstrução e restauro está estimado em R$ 520 milhões —mais de 24 vezes o valor que teria evitado a perda.
Até o momento, a instituição captou cerca de R$ 350 milhões por meio do Projeto Museu Nacional Vive, que reúne UFRJ, MEC, BNDES, Vale e parceiros da iniciativa privada. “Ainda falta um terço da verba para concluirmos tudo. Se conseguirmos captar o restante até o final deste ano, o planejamento é terminar as obras e entregar o museu pronto com exposições em 2029″, diz a vice-diretora.
Segundo o reitor da UFRJ, a integração do museu à universidade na década de 1950 nunca foi acompanhada por um repasse de custeio compatível com a dimensão do palácio. “Reconstruir custa meio bilhão de reais, mas o acervo científico acabou.”
Embora doações e expedições de campo estejam recompondo coleções biológicas e etnográficas, peças históricas e paleontológicas únicas foram destruídas.
“Equipamentos e laboratórios você compra de novo, instala de novo. Mas o material histórico que estava lá nunca mais se recupera”, afirma Sayão. “Com o incêndio do Museu Nacional, asseguro que retrocedemos 300 anos de pesquisa. Quando o país não enxerga a importância de preservar esses espaços, está condenando o próprio futuro.”


