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Flydubai: Como grito de mãe ajudou a salvar voo – 02/10/2026 – Mundo

Nina Manes, 5, voltava de avião para casa, em Tel Aviv, Israel, com a família na classe executiva, quando precisou usar o banheiro.

Sua mãe, Tali Manes, esperava do lado de fora do toalete do avião quando, de repente, ouviu gritos assustadores e fortes pancadas vindos de trás da porta fechada da cabine de comando.

O que ocorreu em seguida foi uma angustiante sequência de acontecimentos que levou os passageiros a bordo do voo 1.073 da FlyDubai a pensar que todos estavam prestes a morrer em um ataque terrorista —mas que acabou se transformando em uma história de heroísmo protagonizada por um piloto indiano e um pequeno grupo de israelenses.

Ao ouvir o que parecia, de forma alarmante, uma luta corporal, Manes, 46, disse ter puxado pela mão um tripulante, sentado por perto e uniformizado, e insistido para que ele averiguasse o que estava acontecendo.

Ele abriu a porta da cabine de comando —que havia sido destrancada por dentro— e se deparou com uma cena horrível.

Havia sangue por toda a cabine.

E o copiloto esfaqueava o comandante, repetidas vezes.

Quatro passageiros israelenses a bordo do voo na manhã de quarta-feira (30), que partiu de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, estão sendo aclamados por terem corrido, desarmados, em direção ao perigo, dominado o copiloto, prestado os primeiros socorros ao comandante e possibilitado que um segundo piloto reserva assumisse o controle e pousasse o avião em segurança na Arábia Saudita.

Yaniv Hayoun, na fileira 11, é um encanador que gostava de assistir a um programa de televisão sobre investigações de acidentes aéreos.

Asaf Rajuan, na fileira 7, é um planejador financeiro e havia escapado por pouco da morte no ano passado, quando um míssil iraniano atingiu o prédio vizinho ao seu.

Tzvika Manes, na fileira 1, é um executivo do setor bancário que voltava de férias emocionantes de duas semanas com a família no Japão, realizando antecipadamente o desejo de sua filha de 11 anos para o bat-mitzvá.

E Shota Musaev é um dentista, na fileira 13, que voltava da China com a esposa após uma viagem de uma semana.

Mas foi Tali, esposa de Tzvika Manes, com gritos horrorizados ao testemunhar a carnificina na cabine de comando, que serviu de alarme e impeliu passageiros comuns a agir.

E foi o piloto do avião, o comandante Smit Machchhar, que, esforçando-se para destrancar a porta da cabine mesmo caído no chão e lutando pela própria vida, permitiu que aqueles passageiros salvassem as 182 pessoas a bordo.

Esta reportagem se baseia em entrevistas com mais de uma dezena de passageiros do voo 1073, nos relatos que outros passageiros deram a emissoras de televisão israelenses e no depoimento que Machchhar deu nesta sexta-feira (2) ao primeiro-ministro de seu país, Narendra Modi.

Alguns israelenses disseram se lembrar de ter sentido o mesmo tipo de impotência de quem está em perigo que experimentaram em 7 de outubro de 2023, durante o ataque a Israel liderado pelo Hamas, e de como israelenses comuns correram para defender a si mesmos e uns aos outros quando o governo não conseguiu protegê-los.

Alguns também disseram que a situação lhes trouxe à mente os ataques de 11 de Setembro e os levou a agir sem hesitar, de modo muito semelhante aos passageiros do voo 93 da United que avançaram para enfrentar os quatro sequestradores daquele avião condenado.

Quase todos os passageiros eram israelenses que voltavam para casa após viagens a lugares distantes da Ásia ou da África, rumo a um país em guerra.

Alguns disseram ter sentido ocasionalmente, no exterior, a hostilidade anti-Israel ou o antissemitismo, ter achado necessário esconder colares com a Estrela de Davi ou dito às pessoas que eram de outro país.

Enquanto esperava para embarcar em uma sala VIP do aeroporto de Dubai, Tali Manes disse que sua filha mais velha, Daniella, ouviu uma reportagem na televisão sobre a violência de colonos israelenses, ficou abalada e foi se sentar em um canto distante da sala.

Mas o voo de conexão para o aeroporto Ben-Gurion, em Tel Aviv —operado por uma companhia aérea que continuara voando para Israel quando muitas outras não o fizeram— significava estar rodeado por outros israelenses, outros judeus, outras pessoas que falavam hebraico.

Enfim, deveria ser possível baixar a guarda.

Horror absoluto

O voo de três horas começou sem incidentes. Almog Itali, 52, que voltava do Japão com a esposa e os dois filhos adolescentes, escolheu um filme no sistema de vídeo do assento: “Send Help”, terror sobre o que acontece após a queda de um avião em uma ilha remota.

Miryam Ochayon, 24, sentada no assento do meio da fileira seis, voltava para casa depois de dez meses e meio viajando sozinha pela Ásia, da Mongólia às Filipinas, no tipo de odisseia pós-serviço militar que é um rito de passagem em Israel.

Ela voltava em parte porque estava escalada para servir como reservista nas semanas seguintes e também para comparecer, no domingo, à cerimônia familiar em memória de seu irmão, Evyatar Ochayon Abukasis, um sargento morto em Kissufim, na fronteira com Gaza, em 7 de outubro de 2023, pouco antes da data prevista para sua dispensa.

Criada em uma família ultraortodoxa de Jerusalém, Ochayon abandonou esse estilo de vida na adolescência.

Ela ainda tinha o hábito de recitar a oração judaica dos viajantes antes da decolagem, mas, por algum motivo, não se lembrou de fazê-lo quando o avião decolou de Dubai, pouco depois das 7h, recordou.

Ochayon disse que adormeceu rapidamente, com a cabeça apoiada na mesinha.

Os integrantes da família Manes, sentados nas duas primeiras fileiras, estavam exaustos após a viagem noturna de volta de Tóquio, mas ainda saboreavam o que havia sido uma viagem particularmente especial.

Daniella, 6, que desenvolvera uma obsessão pelo Japão, fizera uma apresentação visual no aplicativo Canva para convencer os pais a realizar a viagem, especificando todos os lugares aonde a família deveria ir: “experiências gastronômicas”, como sushi, algodão-doce e matcha, e “destaques da moda”, como a Brandy Melville e outras lojas no bairro de Shibuya, em Tóquio. (A fama da 7-Eleven era exagerada, mas todo o resto foi um sucesso, disse a mãe.)

Um café da manhã com rabanada foi servido cerca de uma hora após o início do voo, mas Tali Manes dormiu durante o serviço.

Aproximadamente uma hora depois, pouco após as 9h no horário de Dubai, ela estava de pé, esperando Nina, que faria seis anos dali a poucos dias, do lado de fora do banheiro localizado logo atrás da cabine de comando e da cozinha de bordo.

De repente, contou Manes, ela ouviu “um barulho que normalmente não se ouve” vindo de dentro da cabine de comando —”algo batendo na porta”.

Ela se virou para um piloto reserva sentado a poucos metros e lhe disse que havia algo errado. “Ele estava no iPad e não entendeu o que eu queria”, disse ela. “Eu falei: ‘Vá verificar’. Puxei-o pela mão. Não sou uma pessoa indelicada, jamais faria algo assim. Mas havia uma apatia.”

O homem estendeu a mão para a porta da cabine. “Não estava trancada”, disse Manes. “Essa foi a nossa grande sorte.”

“O que vimos ali”, disse ela, “foi um horror absoluto”.

Manes disse ter visto um dos pilotos esfaqueando o outro, embora não conseguisse descrevê-la em detalhes.

A vítima caiu, e o agressor “continuou esfaqueando, sem parar”, disse ela.

Ela contou que começou a gritar: “Ele está esfaqueando o piloto!”.

‘Eu não podia deixar todos morrerem’

Dentro da cabine de comando, Machchhar, um veterano com 17 anos de experiência de voo —caído no chão, gravemente ferido e ainda sendo atacado— sentia o avião despencar em direção ao chão.

“Eu estava tão gravemente ferido que havia caído no chão”, disse ele a Modi no vídeo divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro. “Mas eu sabia que precisava agir”, acrescentou. “Eu sentia que a aeronave estava caindo.”

Ele tentou alcançar a porta. “Eu fazia aquilo para me salvar, mas também sabia que não podia deixar todos morrerem”, disse.

“Disse a mim mesmo: ‘Este é o último esforço, Smit, faça isso. A porta está bem ali’. E então, de algum modo, consegui abri-la.”

‘Agimos por puro instinto’

Hayoun, o encanador de 50 anos, ouviu Manes gritar: “Ele está esfaqueando o piloto!”.

Seu primeiro pensamento, contou, foi que um passageiro estava atacando outro.

“E, no exato momento em que me levanto e saio do meu assento, o avião inclina —de forma muito acentuada para a esquerda— e depois volta a se estabilizar”, disse ele à Kan 11, emissora pública de Israel. “Aquilo me abalou.”

O movimento brusco do avião o fez relacionar o comportamento da aeronave aos gritos de Manes, disse. Ele orientou a esposa e as filhas a apertarem bem os cintos de segurança. E correu para a cabine de comando.

Antes que chegasse lá, contou, o avião entrou em um mergulho acentuado que o arremessou de lado, sobre os assentos e contra a parede da cabine de passageiros. “A força era insana”, disse. “Eu não conseguia me levantar.”

Ochayon disse que, quando o avião começou a mergulhar, não era tanto o ângulo da descida, mas a aceleração da aeronave que se tornava insuportável. “Parecia dez vezes pior que uma montanha-russa”, disse. “Nosso rosto parecia derreter.”

Em determinado momento, ela ouviu um forte estalo vindo da parte traseira do avião.

Hila Evron-Cohen, 48, dormia profundamente no assento 26C, do outro lado do corredor em relação ao marido, quando o solavanco do avião a acordou. Ela voltava com o marido e os dois filhos adolescentes de Zanzibar, no último trecho de uma viagem de cinco voos para casa, iniciada na manhã de terça-feira no Serengeti.

Quando o avião mergulhou de nariz, contou, ela sentiu a mente e o corpo se separarem — e experimentou um medo que não sentia desde 7 de outubro. “É algo que toma conta de você”, disse. “Paralisa você.”

Na parte da frente da cabine de passageiros, Hayoun sentiu o avião se estabilizar um pouco. Recuperando o equilíbrio, avançou até a porta da cabine de comando.

O piloto reserva estava parado ali, segurando a maçaneta, mas sem fazer nada, disse ele. Outros passageiros confirmaram o relato, afirmando que o piloto reserva parecia atônito demais para agir.

Hayoun disse que passou por ele à força e viu o comandante caído no chão, logo após a porta, e o copiloto apoiado com os joelhos sobre o painel de instrumentos.

Ele contou que agarrou o copiloto pela garganta, aplicou-lhe uma chave de pescoço e o puxou para trás — enquanto gritava por ajuda.

Manes disse que o marido, Tzvika, de 48 anos, havia caído no chão ao lado dela devido à força do movimento do avião. “Olhamos nos olhos um do outro, e jamais esquecerei aquele olhar”, disse. “Então ele se levantou para ajudar.”

Ele tirou a filha do banheiro, entregou-a de volta à esposa e entrou na luta.

Rajuan, 44, também correu para a frente. “Agimos por puro instinto”, disse. “Você não pensa.”

Musaev, 47, disse que começou a gravar um vídeo com o celular, pensando que o avião enfrentava uma turbulência extrema, mas logo percebeu que se tratava de algum tipo de ataque e correu para a parte da frente da aeronave.

Em seu assento, Ochayon pegou o celular e começou a gravar vídeos. O primeiro tinha o registro de horário das 9h23, no horário de Dubai —52 minutos antes do pouso previsto em Tel Aviv.

‘Todos fizeram o que era necessário’

O terror havia tomado conta de toda a cabine.

Ochayon virou-se para a mulher ao seu lado e disse: “Eu não posso morrer, eu não posso morrer —não posso fazer isso com a minha mãe, que já perdeu meu irmão”.

Evron-Cohen disse que seu filho de 13 anos, Hillel, começou a gritar para ela: “Mãe, eu te amo! Mãe, eu te amo!”.

Foi então que ela entendeu que ela e seus filhos iriam morrer.

“Você passa a vida inteira tentando proteger seus filhos”, disse ela. “Para que não se machuquem, para que não sintam frio nem calor, para que estejam sempre confortáveis, para que tenham comida e coisas limpas.”

Agora, ela não tinha como protegê-los. “Esse desamparo é algo que não se pode explicar em palavras”, disse.

Se, para os passageiros, aquele momento pareceu se arrastar por uma eternidade, na cabine de comando a luta foi rápida.

Os passageiros dominaram o copiloto e o arrastaram pela porta até a área de serviço.

“Nós nos jogamos em cima dele”, disse Tzvika Manes. “Três homens.”

Em determinado momento, Rajuan, com o sangue escorrendo pelo rosto devido a um corte, voltou à cabine de passageiros e gritou: “Nós vencemos!”.

Tzvika Manes disse que alguém trouxe fones de ouvido com fio para amarrar os pulsos e os tornozelos do agressor, e um tripulante trouxe abraçadeiras plásticas reforçadas.

Musaev, o dentista, disse que colocou uma máscara de oxigênio no rosto de Machchhar e tentou estancar o sangramento, pressionando os ferimentos com uma camisa.

“Ele tinha um corte profundo na cabeça, as mãos estavam todas cortadas e havia ferimentos leves no corpo”, disse. “Ele perdeu muito sangue.”

O piloto estava consciente, mas seu pulso estava ficando mais fraco. Musaev disse que falou a um tripulante: “Temos de pousar o mais rápido possível, porque ele não vai sobreviver”.

Hayoun permaneceu na cabine de comando com o piloto reserva. Hayoun disse a jornalistas israelenses que puxou os controles do avião por alguns segundos, até que o piloto reserva —a essa altura já recuperado do aparente choque e também sangrando devido a um ferimento na mão sofrido durante a luta na apertada cabine de comando— assumiu o controle.

Do lado de fora da cabine de comando, os outros homens israelenses montaram guarda junto à porta, sem deixar ninguém passar, até que um segundo piloto reserva os convenceu a permitir sua entrada.

Em questão de um ou dois minutos, os israelenses a bordo foram tomados por várias constatações que abalaram seu estado de espírito quase tanto quanto o mergulho aterrorizante do avião, suas guinadas e sua recuperação haviam abalado seus corpos.

A ameaça inicial e o terror que ela provocara haviam acabado. Mas eles também não tinham como ter certeza de que estavam fora de perigo. Os israelenses, acostumados a se manter sempre alertas em ambientes desconhecidos, passaram a um estado de hipervigilância. Disseram que não confiavam em ninguém.

“Havia muito medo de que ele tivesse cúmplices”, disse Musaev sobre o copiloto. “Era disso que tínhamos medo. Começamos a mandar as pessoas se espalharem pelo avião, para que ninguém pudesse sacar uma faca e esfaquear a nós, as mulheres ou as crianças.”

Mesmo com um novo piloto no comando do avião, Rajuan disse que esses temores não se dissiparam.

“Não sabíamos se o piloto estava do nosso lado ou não, não sabíamos quem estava contra quem. Começamos até a desconfiar dos comissários de bordo”, disse.

“Debaixo de nós só havia deserto”, acrescentou. “Tínhamos medo de estar sendo levados para um país hostil.”

Por fim, os passageiros se acalmaram. “Não houve gritos, pânico nem berros”, disse Rajuan. “Todos entenderam a situação em que estávamos e o que precisava ser feito, e todos fizeram o que era necessário.”

O novo piloto conduziu o avião a um pouso seguro em Tabuk, na Arábia Saudita, às 9h45, apesar de boa parte do leme da aeronave aparentemente ter se desprendido durante o voo.

Vídeos mostraram os passageiros irrompendo em cânticos de gratidão e orgulho: “Hashem Yitbarach”, ou “Louvado seja Deus”, e “Am Yisrael Chai”, ou “O povo de Israel vive”.


David M. Halbfinger
, Natan Odenheimer
, Adam Rasgon
, Johnatan Reiss
e Aaron Boxerman

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