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Erguido em Chicago, nos Estados Unidos, o Home Insurance Building, construído em 1885, é celebrado como o primeiro arranha-céu da história. Tinha altura modesta para os padrões atuais — 42 metros, divididos em dez andares. Mesmo assim, revolucionou a engenharia civil graças ao esqueleto metálico que tirava das paredes a responsabilidade de sustentar todo o peso da construção. A conquista do espaço aéreo promoveu uma revolução urbana, já que terrenos relativamente restritos passaram a acomodar muito mais moradores. Incorporados de vez às paisagens das maiores metrópoles do mundo, os prédios cada vez mais altos tornaram-se símbolos de poder e prosperidade — Nova York, Londres, Xangai e Dubai que o digam. Miami, no entanto, demorou a entrar na onda do gigantismo.
A cidade, conhecida por suas fachadas baixas e coloridas, viu o horizonte se elevar apenas na década passada, em decorrência de uma mudança da autoridade de aviação civil americana, que passou a permitir prédios com até 320 metros. Agora, vive-se um boom imobiliário rumo às nuvens sem precedente, em movimento interessante demais para ser ignorado. Nada menos que 27 edifícios com mais de 150 metros, ou quarenta andares (condição atual para ser considerado um predião), estão em obras. Destaque para a filial do luxuoso hotel Waldorf Astoria, que chegará a 320 metros, desbancando os 290 do Cipriani Residences e suas formas que lembram iates italianos. A inauguração do novo empreendimento está prevista para 2028, quando então entrará para o rol dos mais altos do balneário.
A posição, no entanto, deve durar apenas até 2030, quando será igualado pelo 888 Brickell by Dolce & Gabbana. Em comum, os edifícios têm instalações ultraluxuosas, como elevadores que comportam carros para serem estacionados nos apartamentos, piscinas privativas com vista para o mar, jardins suspensos, restaurantes estrelados, concierge 24 horas e beach clubs privados. Tudo sob as prestigiadas assinaturas de grandes marcas, capazes de atrair um público disposto a pagar caro por tanta exclusividade. Porsche, Aston Martin e até o legado da pintora mexicana Frida Kahlo, que se orgulhava de ser comunista, emprestam o nome às abusadas torres. “Os lançamentos ligados às grifes são os que mais se valorizam”, diz o corretor Folko Weltzien, da Miami Realty Solution. Os preços dispararam. A região metropolitana de Miami já é a segunda mais cara dos EUA — perde apenas para San Francisco — , com imóveis cujo metro quadrado ultrapassa os 20 000 dólares.

A migração para a Flórida do dinheiro que antes se concentrava na Califórnia ou em Nova York ajuda a explicar o fenômeno. Governado por republicanos desde 1999, o Estado do Sol vem oferecendo condições fiscais vantajosas para quem ganha mais de 1 milhão de dólares por ano. A quantidade de contribuintes que se enquadram na privilegiada faixa de renda quadruplicou, passando de 19 450, em 2010, para 77 670, em 2022. “Não estamos apenas presenciando um aumento populacional, mas uma mudança de riqueza”, diz Ana Bozovic, fundadora da consultoria Analytics Miami, que chama essa nova fase de “êxodo em eco”. O conceito remete à ideia de ondas populacionais. A primeira, “movida pela incerteza” da pandemia, já ficou para trás. O que se vê agora é a “convicção” de que os estados americanos estão tomando caminhos diferentes quanto à cobrança de impostos e ao ambiente de negócios — em Nova York, o prefeito socialista Zohran Mamdani tenta cumprir a promessa de campanha e subir de 3,9% para 5,9% a parcela municipal do imposto de renda dos super-ricos.
A guinada ganhou rostos conhecidos. Ken Griffin, dono do bilionário fundo de investimentos Citadel, transferiu a sede da companhia de Chicago para Miami. Mark Zuckerberg acaba de desembolsar 170 milhões de dólares por uma mansão ainda em construção em Indian Creek, ilha privada conhecida pela concentração de quem ocupa o vértice da pirâmide social. O presidente Donald Trump também quis colocar seu nome no rol dos ilustres moradores. Pretende erguer uma biblioteca presidencial e um hotel, numa torre de 47 andares, em terreno doado pela Miami Dade College. As vantagens fiscais, porém, são apenas parte dos fatores a seduzir essa turma. “Os impostos podem atrair, mas a segurança patrimonial gera confiança e o lifestyle consolida a decisão”, resume Andrea Panaro, corretora de imóveis na Flórida.
O investimento, porém, tem riscos. Miami está assentada em terrenos porosos, vulneráveis a inundações, tempestades e à elevação do nível do mar, condições que podem se agravar com as mudanças climáticas que se avizinham. O código de construção exige imóveis capazes de resistir à chamada Zona de Furacões e Ventos de Alta Velocidade, com rajadas que podem chegar a 300 quilômetros por hora. “O desafio é fazer com que a cidade não seja apenas capaz de construir mais alto, mas também de se sustentar, no chão”, diz Luciana Royer, professora de planejamento urbano da FAU-USP. Miami aguentará o peso de tanta mudança?
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015


