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Ao se instalar na Casa Rosada, no final de 2023, Javier Milei levou consigo a motosserra, símbolo da vitoriosa campanha à Presidência da Argentina, e foi logo avisando: promoveria um corte de gastos radical para reverter o desastre econômico que o país enfrentava, depois de sucessivos governos peronistas. Reduziu as despesas do Estado em 35%, atacando principalmente o vasto colchão de subsídios nas contas de luz, gás, água e no transporte, concedidos à população sem qualquer distinção de renda. Deu resultado. A inflação anual caiu de espantosos 161% para 33%, o país registrou o primeiro superávit fiscal em mais de uma década e a economia voltou a crescer — o PIB caminha para o segundo ano consecutivo de alta, depois de atingir 4,4% em 2025. Em julho, o governo conseguiu um resultado que parecia inalcançável para quem há anos convive com a escassez de dólares: as reservas cambiais superaram a meta estabelecida pelo FMI, principal credor da dívida externa, e chegaram a 50 bilhões de dólares, o dobro do início do mandato. Com o feito, o risco-país, espécie de termômetro da saúde financeira das nações, recuou de 1 900 para 600 pontos.
As celebradas cifras, contudo, não refletem toda a realidade. O necessário ajuste brotou acompanhado de um processo de empobrecimento da base da pirâmide. A um ano das eleições em que Milei, o autodenominado “anarcocapitalista”, pretende submeter-se novamente ao voto popular, há uma indagação incontornável: o amargo remédio que tirou a Argentina da UTI veio acompanhado de graves efeitos colaterais? Em muitos aspectos, sim. Os salários não acompanharam o custo de vida e estão mais baixos do que há três anos. A perda do poder de compra é de 40%, reflexo da interdição dos cofres públicos, que além de reduzir o consumo das famílias, fez a produção industrial recuar 3%, o pior tombo desde a pandemia. O quadro levou o banco J.P. Morgan a rever a projeção de crescimento neste ano, de 5% para 1,5%, prevendo uma recessão já no terceiro trimestre. “Os saltos econômicos não chegaram às famílias de forma tangível”, diz Martín Kanenguiser, autor do livro A Argentina e o Fundo. Para piorar, escândalos recentes de corrupção levaram à renúncia do chefe de gabinete da Presidência, atalho para a explosão das taxas de rejeição de Milei, agora em 64%, o mais alto patamar de seu mandato.
Nas pesquisas de intenções de voto, o presidente já aparece empatado com Axel Kicillof, o popular governador de Buenos Aires que deve representar o peronismo nas urnas em 2027. Embora minimize a pressão (“estou tranquilo quanto à reeleição”), ele dá a entender ter sentido o golpe. Sua mais recente cartada soa tão arcaica quanto um disco de tango riscado: recorrer à velha reivindicação da Argentina sobre as ilhas Malvinas, dominadas pelo Reino Unido, tema que só rivaliza com o futebol em termos de mobilização popular. A guerra travada pelo território em 1982, quando a moribunda ditadura dos generais ocupou brevemente o território até ser enxotada pelo exército britânico, é uma ferida aberta.

Milei abandonou a ponderação que costumava adotar para abordar o tema ao anunciar, na terça-feira 29, o início de um processo de arbitragem contra um projeto de perfuração de petróleo nas proximidades do arquipélago, dando ao governo de Londres duas semanas para interromper a “exploração ilegítima”. Do contrário, ameaça, acionará o Tribunal Internacional do Direito do Mar. “Isto é uma causa nacional”, esbravejou durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, na semana passada, em que também anunciou uma base naval nova em Ushuaia, para ampliar a presença militar na região. “É a estratégia clássica do inimigo externo, para unir em torno de si até mesmo quem não for seu eleitor tradicional”, afirma Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM.
A cortina de fumaça, insista-se, vem na esteira da divulgação de uma série de indicadores do Indec, o instituto nacional de estatísticas, que acendeu alertas vermelhos. Após três semestres de queda, a pobreza voltou a subir para 32%, o que significa que, em apenas seis meses, 2 milhões de pessoas atravessaram a linha dos que não conseguem cobrir gastos essenciais, estimados em 330 dólares por mês. O baque está ligado a outro preocupante dado agora publicado: mais de 30 000 empresas fecharam as portas na gestão Milei, acarretando a perda de 410 000 postos formais de trabalho. A situação é particularmente preocupante na indústria, que sofre com o peso valorizado e a competição de produtos importados. Diante da desconfortável realidade, Milei deu de ombros: “Para amadurecermos, esses capitalistas de compadrio precisam falir”, bradou.
Economista de formação, o presidente pode até acreditar no que diz. O personagem político, porém, sabe que é muito mais complicado. Pesquisas recentes mostram que a inflação já não está no topo das preocupações dos argentinos. No pódio, agora, figuram o desemprego, salários baixos e pobreza. “É um problema enorme, pois são temas que se sobrepõem à ideologia nas urnas”, diz o professor Luis Jaume, da Universidade de Buenos Aires. A aposta para reverter o quadro segue sendo a de que a casa arrumada, com disciplina fiscal e menos burocracia (excelentes medidas, aliás) desencadearia uma onda de investimentos. Buscando atrair aportes do exterior, Milei chegou a apresentar um projeto para extinguir regras que limitavam a propriedade estrangeira a 15% do território, a fim de pôr à venda vastas áreas da Patagônia, onde se acredita haver reservas de minerais. A resistência nas ruas o fez recuar.

Outras iniciativas menos heterodoxas seguem de pé. A reforma no Banco Central pretende garantir a independência do órgão, proibindo-o de financiar o Tesouro com a impressão desenfreada de dinheiro, prática recorrente que pressionou a inflação. Restaria à instituição a única e salutar tarefa de zelar pela preservação do peso, eliminando esdrúxulas metas secundárias que não fazem parte das atribuições da autoridade monetária, como a promoção da igualdade social. O projeto inclui ainda a blindagem da diretoria, que ficaria protegida das arbitrariedades do Poder Executivo, ao exigir a anuência de dois terços do Congresso para permitir a demissão de qualquer de seus integrantes.
O esforço parece necessário frente à desconfiança que as cores albicelestes da bandeira argentina há anos despertam na comunidade internacional. “Ainda há relutância em alocar capital no país diante do possível retorno do peronismo”, diz Bruno Binotti, do think tank Chatham House. Temeroso de que os apelos econômicos não sejam suficientes, integrantes do governo subiram o tom contra os adversários. “O kirchnerismo é um inferno”, disparou o ministro da Economia, Luis Caputo, referindo-se à corrente ligada à ex-presidente Cristina Kirchner, condenada e presa por corrupção. Já Kicillof seria “o anticristo”.
E há, na lida com os problemas, a mão amiga de Donald Trump, o novíssimo amigo de infância de Milei, sempre disposto a meter a colher na América Latina para garantir que seus aliados sigam no poder. No ano passado, dias antes das eleições legislativas, ele entregou uma ajuda de 20 bilhões de dólares, tida como fundamental para a vitória do libertário e seus aliados. Agora, Trump sinalizou que pode revisar o histórico apoio ao Reino Unido na questão das Malvinas e prometeu colaborar com o combate ao narcotráfico. Como moeda de troca, a Argentina comprou 24 caças F-16, fabricados nos Estados Unidos, por 300 milhões de dólares. Na milonga de Milei, quem dita o ritmo da orquestra é a austeridade e a responsabilidade fiscal. Boa parte do povo já não aplaude essa coreografia. Em 2027, a dúvida é se o presidente será chamado para o bis.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015


