InícioBrasilO que ensino à minha filha sobre política, e o que ela...

O que ensino à minha filha sobre política, e o que ela me ensina

Explico o que ela já sabe, na verdade, pois há tempos é atenta a esses temas e sua sensibilidade sempre tendeu para uma esquerda intuitiva. Espontaneamente, sem que lhe disséssemos nada de objetivo, ela já chegou a diversas conclusões que nos comoveram: que as armas deveriam ser banidas do mundo, até das mãos da polícia; que a água deveria ser gratuita e todo transporte, coletivo; que o Estado poderia recolher todo o dinheiro e distribuí-lo em partes iguais entre os habitantes do país; ou mesmo que nem deveriam existir países, com suas fronteiras sem sentido. Foi com esse tipo de pensamento comunitário, aplicado à escola, que ela se elegeu representante de classe no início do ano, e nesse dia fui eu que flagrei em seus olhos uma felicidade inédita.

Agora, desde domingo, nossas conversas se fizeram um pouco menos utópicas, mais sombrias. Ela quis entender por que alguns sentem que está ameaçada a própria democracia, e foi preciso contar do golpe que Bolsonaro planejou para se manter no poder, que previa o assassinato de um juiz e até do novo presidente, num plano que o levou à condenação por 27 anos. Foi preciso acrescentar que o filho promete soltá-lo caso assuma o poder, indiferente a qualquer justiça, e que já deturpa as palavras dizendo que pretende usar sua maioria de congressistas para “redemocratizar” o país, num eufemismo que mal tenta esconder seu autoritarismo.

Mas, nesse caso, se a democracia se perde, qual seria o perigo real?, ela quis saber, e então tive que descrever os crimes cometidos por ditaduras ainda tão recentes, tive que falar de censura, e vigilância, e repressão, e tortura, tive que trazer à tona essa palavra que ela nunca tinha ouvido, dilucidando seu tenebroso significado sob o olhar condoído que ela me devolvia. O poder pode se obscurecer muito, filha, e às vezes tudo aquilo que julgamos garantido se desfaz rapidamente. Assim se deu a história da nossa família, e então contei as dores do passado que hoje marcam aquilo que somos, contei da militância de seus avós durante a ditadura argentina, do desaparecimento de tantos amigos, da fuga necessária para o Brasil, do exílio em que nasci.

Percebi que minha voz se fazia mais estridente. Mas como não cabia encerrar a conversa num tom triste, como a vida soube se reinventar e sobrepor às dores pretéritas uma infinidade de alegrias, achei que me cabia dizer que não há, na política como no futebol, nenhuma derrota definitiva. Que um susto como o de domingo não deve produzir desânimo, e sim convidar a uma luta mais enfática, mais aguerrida. Que isso que chamamos luta é feito sobretudo de palavra, de um diálogo paciente, de uma troca de ideias infinita. Para que as pessoas percebam que, por mais insatisfeitas que se sintam, convém ainda agir com a razão que mora em seu peito, e não colocar em risco aquilo que mais prezam, seu país, suas liberdades, seus direitos. E então minha voz já era outra, e em seus olhos alegres consegui aprender a força que faltava ao meu dia.

Veja a matéria completa aqui!

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -spot_img

Mais Vistas