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Em seu livro Esperança em Ação, a senhora diz que, apesar de o mundo estar mais perigoso, mantém o otimismo aceso. De onde ele vem? O mundo está mesmo mais sombrio, com guerras e regimes autoritários, mas vejo também como a sociedade consegue se organizar e agir. Aposto muito nas novas gerações, que exigem mudanças e brigam por um futuro melhor.
Quando ainda era primeira-ministra, vídeos vazados em que aparecia com amigos em uma festa viraram escândalo global. Isso a fez mudar de postura? Não. Tenho certeza de que, se fosse homem, uma noite de férias dançando com amigos não alimentaria por semanas o noticiário dos tabloides. A repercussão foi tanta que fiz até exame toxicológico para encerrar as tolas especulações de que tinha consumido drogas. Não deveriam esperar que todos os líderes se encaixem no mesmo molde das autoridades de sempre. É algo que acaba espantando os jovens, e a democracia precisa da participação deles.
A senhora tinha uma filha de 1 ano quando assumiu o cargo. Foi duro equilibrar trabalho e família? Quando minha filha nasceu, eu e meu então marido tivemos idêntico tempo de licença. Isso é essencial não apenas para as mulheres seguirem a carreira, mas também para os homens desempenharem o papel de cuidar dos filhos. Quando a lei divide essa responsabilidade, como na Finlândia, a cultura no ambiente de trabalho naturalmente muda.
Segue a favor de políticas que incluam a ala feminina nos diversos escaninhos da sociedade? O ideal é que fôssemos avaliadas por decisões, atitudes e caráter, não por gênero, idade ou aparência. Mas ainda não chegamos lá. Enquanto houver poucas de nós em posição de liderança, a representatividade continuará sendo vital.
Como foi conduzir a Finlândia à Otan em plena guerra na Ucrânia? Foi tenso. Antes, a maioria no país era contra a adesão. Mas a guerra acabou deixando claro para todos que não dava para permanecermos militarmente não alinhados diante de um vizinho disposto a atacar uma nação soberana, e assim conseguimos avançar.
A senhora alerta no livro que boa parte dos países da Europa se tornou dependente de regimes autoritários. Como mudar o jogo? Precisamos de mais autonomia estratégica, tanto na defesa quanto em setores como o de tecnologia. A Europa está atrás dos Estados Unidos e da China em inteligência artificial, computação quântica e robótica. Se não desenvolvermos nossas capacidades, seguiremos vulneráveis às decisões de outros países.
Pensa em voltar à arena política? Não tenho planos de disputar cargo público, mas nunca digo nunca.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016


